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» O medo de ser avaliado

A princípio, essas ferramentas de gestão ajudam as empresas e os profissionais a identificar os pontos fortes e fracos de cada um e a desenvolver as características essenciais para o negócio. Mas, em alguns casos, também funcionam como o "espelho mágico" do conto da Branca de Neve: o executivo pode perguntar se alguém ali é melhor do que ele e descobrir que sim! Por isso, esses métodos enfrentam resistências, boicotes e sabotagens dos mais variados graus. Afinal, é o emprego de todos que está em jogo - inclusive, o de quem contrata a avaliação e o de quem comanda a empresa.

No entanto, a medição do trabalho traz muitos benefícios para quem sabe superar a resistência inicial. Veja no final do texto o depoimento de um diretor de uma fabricante nacional de produtos automotivos.

Para Marcelo Borges, diretor da ABS Consultoria, especializada em produtividade, todas as pessoas são motivadas pelo desempenho e, mesmo que não percebam, se comparam com outras ou com parâmetros que permitam medir a performance. "Queremos crescer, evoluir e sermos mais amanhã do que somos hoje. Nesse sentido, fica muito evidente a importância das ferramentas de produtividade, como programas de treinamento, que dão base conceitual e técnica ao profissional, sistemas de planejamento e controle, que permitem a parametrização e medição do desempenho e, por fim, os processos internos de cobrança de resultados, que provocam as pessoas a buscar a melhoria constante de seu desempenho e, com isso, resultados para a empresa", afirma.

Segundo Borges, as pessoas geralmente resistem às mudanças num primeiro momento, mas a maioria entende que mudar é inevitável. "Mesmo buscando o autodesenvolvimento, cada um o faz de seu jeito, no seu timing, que não é necessariamente adequado às expectativas da empresa. Isso cria a chamada zona de conforto, onde muitos profissionais se enclausuram, sentindo-se mais protegidos. Qualquer iniciativa que venha abalá-la não será bem-vinda. As reações, em alguns casos, podem ser danosas para a empresa. Por isso, as mudanças devem ser feitas de forma planejada e envolvente. Todos devem participar do processo e se sentir co-responsáveis pela solução desenvolvida", descreve.

De acordo com o consultor, o temor de demissões como resultado das avaliações de desempenho é justificável; por isso, ele explica que essa não é a finalidade do seu trabalho. "Nossa metodologia está focada na melhoria da lucratividade. E isso se consegue melhorando o desempenho das partes em benefício do todo. Toda empresa, em maior ou menor intensidade, é afetada por fatores internos ou externos. A importância desses danos depende, em grande parte, da eficiência de seus processos de gestão, da capacidade de identificar o problema em tempo hábil, de estabelecer uma solução e de agir. Logo, percebe-se quão importante é manter pessoas com atitude adequada e proativas, sistemas eficientes que permitam a fluência da informação na freqüência e na medida adequadas e procedimentos racionais. Quando os executivos entendem isso, o caminho das mudanças se torna mais claro", define.

Henri Vahdat, diretor da área de capital humano da consultoria Deloitte, lembra que a primeira motivação para o uso das ferramentas de avaliação surgiu quando as organizações perceberam que não eram apenas um portfólio de produtos e serviços. "Desde os anos 90, autores como C. K. Prahalad e Gary Hamel propõem uma visão de portfólio de competências. Produtos e serviços podem não ser os mesmos no futuro. O mais importante é a competência essencial de cada empresa. Para umas é a inovação, para outras, a qualidade ou agilidade etc.", afirma.

Ele ressalta que o foco nas competências fez com que o valor de mercado de algumas empresas de ponta, como Microsoft e GE, superasse o valor contábil. "Com isso, as organizações passaram a definir seu posicionamento estratégico suportado por um conjunto de características essenciais, que devem ser desenvolvidas. Para tanto, é necessário todo um aparato de gestão a fim de criar uma cultura interna de forma pragmática e objetiva. Essa cultura deve ser coerente com o que a empresa oferece ao mercado", diz Vahdat.

Programas como treinamentos, coaching, mobilidade interna, equipes colaborativas e comunidades de práticas são utilizados pelas organizações para desenvolver suas competências essenciais e posicionar-se de forma singular. "Essa multiplicidade de ferramentas ajuda a empresa a medir o potencial e a performance adequados às suas características", explica.

"Se o Brasil já tem grau de investimento internacional e é uma das potências emergentes, as pessoas fariam bem em se preparar para o mercado internacional, entendendo mais de negócios e de outras culturas. Isso impõe um desafio monumental", declara o diretor da Deloitte. E avisa: "A competência mais importante não está no repertório de conhecimentos e habilidades, mas na pré-disposição em adquirir novos conhecimentos e habilidades, porque o mundo está mudando a cada minuto. A capacidade de aprender continuamente é fundamental, inclusive para quem está no topo".


Fonte: Revista Melhor


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